quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Remember Day - 5 anos depois!


27 de Janeiro de 2007.
Hoje quero derramar meu coração em palavras... 
Cinco anos atrás eu era ordenado Sacerdote da Igreja.

Lembro com alegria e gratidão os amigos que lá estiveram presentes.

Lembro do tanto que chorei ouvindo Diante do Trono cantar: "Preciso de Ti", duas horas antes de iniciarmos a celebração.
Derramei lágrimas naquele quarto escuro e sereno que antecedia o sublime momento de minha consagração.
Lembro da satisfação em ver os meus queridos presentes naquele dia único e sagrado.

Hoje fiz memória daquela tarde de sábado que nunca mais voltou.

O Silêncio do templo, a brisa leve que entrava pela porta frontal da Igreja.
As imagens, a cruz central, o sacrário que me leva a contemplar o mistério da fé.
Tudo preenchia de extase meu coração.
Minutos antes, me confessei. Tamanha era a o sentimento de indignidade. Precisava restabelecer minha comunhão com o Pai através da reconciliação.
Agradeci ao Bom Deus pelos anos servindo a Igreja.
Pela minha conversão, pelo tanto que Ele significa para mim, pobre servo.



Confesso, apesar de minha fraqueza na fé:
Amo a Igreja, porque nela me sinto filho de um pai amoroso.
Amo a Igreja, porque Ela nunca me ensinou a errar.
E porque se peco, é por minha inteira e única responsabilidade.
Sei em quem eu coloquei a minha confiança, mas também sei quão trôpego e fraco fui diante de meus erros.

Amo celebrar a Eucaristia..
Momento sublime e riqueza mais sagrada da Igreja.
Amo estar com os que professam a mesma fé que eu.
E me sinto bem (também) com os que professam uma fé diferente.

Diante de tudo o que sinto, olho para o Deus que me contempla. 
Ele sabe o quão dificil tem sido manter-me de pé.Mas nem por isso, perco a esperança de ser o vaso de barro que deve ser quebrado em suas mãos.

Quem sou, ó Deus, diante de Ti?

Sou como um andarilho parado no meio da estrada..
Sou como aquele pote de água parado em cima da montanha...
Sou como o menino em cima da árvore a olhar o céu...
Sou como uma pipa que voou e nunca mais voltou...
Sou como o passaro que se perdeu do bando na ultima primavera...


Sou como a garrafa que veio parar na areia daquela praia deserta...
Sou um colecionador de lustres antigos, roupas antiquadas e quadriculadas...

Sou como o barco a vela que veio do meio do mar...
Sou um visionário que ama coisas velhas, baús, discos e relicários...

Sou um observador de minhas sombras e luzes..(são tantas).
Sou um carioca de alma mineira...
Um acreano sem sotaque remando no rio...
Um capixaba peregrino por filiação paterna...
Um navegante sem barco e com remos....

Sou como um escritor sem livro...

Um estudante sem diploma...
Um andarilho de mochila...
Um olhar e uma pausa silenciosa do ato de pensar.

Hoje, quero corresponder,
Com a oferta do meu viver
Ao apelo de Deus em meu coração.
Quero ofertar minha vida,
E render ao meu Senhor tudo o que tenho e sou.

Gastar os meus dias
Minha juventude, por amor
Porque o meu perfume não se espalhará
Se não me derramar pelo teu amor, ó meu Senhor..




Essa é a questão.
Soli Deo Gloria. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Devaneios do Caminhante Solitário!


Janeiro de 2012.
Estou no meio de um curso de 15 dias aqui no interior de Goías.
Clima árido chuvoso, nostálgico e propício para dilemas existenciais.

Outro dia me surpreendi pensando: o que seria de minha existência e do que sou se por acaso eu não acreditasse em Deus. Em termos positivos, quis saber a respeito da função que a Fé tem sobre minha vida.

O primeiro impulso foi na direção da questão ética: Deus é minha matriz de certo e errado, bem e mal.
Há muita coisa que faço e deixo de fazer na vida por acreditar que Deus é um padrão a ser seguido ou obedecido, não necessariamente por causa de Deus em si, mas para o bem de quem o obedece ou segue: algo como seguir as orientações de um manual de instruções – você pode fazer do seu jeito, mas a coisa não vai funcionar, e o resultado não é que o manual vai ficar triste ou bravo com você, mas que a coisa não vai funcionar mesmo.

"Logo depois desta conclusão rápida, me pareceu óbvio que Deus não seria a única alternativa para que eu tivesse uma orientação ética: os ateus e agnósticos também têm sua ética."

O passo seguinte foi imaginar que outra função Deus ocuparia em minha vida além da referência ética.
Provavelmente você afirmaria o óbvio: Deus é aquele que cuida de mim, me protege, provê para o meu bem e minha felicidade. Embora eu acredite nisso, na verdade, esse pensaqmento não me basta, pois a vida está cheia de acontecimentos que me induziriam a acreditar exatamente o contrário. Caso eu dissesse a um cético que Deus é como um pai, mas um pai todo-poderoso que cuida de mim, certamente eu seria bombardeado de perguntas.

Como disse Robert De Niro: “Se Deus existe, ele tem muito o que explicar”.

Além disso, estar sob o cuidado de um superprotetor não é a razão porque acredito em Deus.
De fato, abro mão de ser protegido – minha pouca razão e inteligência não me permite esperar melhor sorte do que a das crianças abandonadas, dos enfermos crônicos, dos miseráveis e vitimados pelas atrocidades dos maus. Ou Deus protege todo mundo, ou a proteção não serve como fundamento para a crença nele.

"A idéia de um ser lá em cima fazendo e acontecendo aqui em baixo, como um mestre do jogo de xadrez que faz dos seres humanos peças num tabuleiro cósmico nunca me agradou."

Mas mesmo assim, acredito nisso: sou daqueles que acredita que Deus está no controle do universo e da história.
O que quero dizer é que não acredito em deus como se as coisas que acontecem ou deixam de acontecer fossem resultado de decisões divinas.

"A maneira como percebo Deus é mais ou menos como percebo o sol: ele simplesmente está lá. Acredito em Deus mais ou menos assim: Deus está, ou se preferir, Deus é."

Assim como o sol irradia seu calor sem cessar, também Deus afeta tudo em todo lugar em relação a todo mundo.
O sol não precisa tomar decisões: ele simplesmente está lá. Assim também em relação a Deus. É verdade que nem todas as pessoas e nem todos os lugares são afetados pelo sol, e também que as pessoas e lugares que são afetados pelo sol experimentam o sol de maneira diferente e com conseqüências as mais variadas. Mas não por causa do sol.

Assim também em relação a Deus. Ele é, e sempre do mesmo jeito, as condições que lhe são dadas é que mudam.
Uma criança sozinha na rua e outra num ambiente familiar de afeto e amor; um homem que aproveitou bem suas oportunidades de estudo e formação profissional e outro que não teve a mesma sorte; alguém com uma doença congênita e outra pessoa com propensão atlética...entendem?

"Creio que Deus é sempre o mesmo. Fluindo de maneira plena e igual sobre tudo e todos, em todo tempo e lugar. As realidades sob sua influência é que são distintas."

Por esta razão as conseqüências de sua influência são diversas e jamais podem ser padronizadas.
Já imagino o que você está pensando. Você acha que acabei de tirar a dimensão pessoal de Deus, e passei a tratar Deus como uma força ou uma energia. Faz sentido, mas tenho uma saída...

"A diferença entre Deus e uma força ou energia é que as forças e energias não afetam dimensões pessoais."

Creio que as virtudes como amor, perdão, misericórdia, justiça, solidariedade, pureza de coração, alegria e saudades são atributos pessoais, relativos a seres conscientes, com capacidades afetivas-emocionais, intelectuais e racionais.

Por esta razão, o sol é apenas uma metáfora...
Incompleta, como toda metáfora – para Deus. Deus não é uma energia ou uma força impessoal, mas o Ser–em–Si, fundamento pessoal de toda a realidade existente.

"Como disse São Paulo, apóstolo: em Deus somos, nos movemos e existimos."

Creio que a principal maneira como somos afetados por Deus se dá através dos pensamentos e sentimentos que são nossos, mas não tiveram origem em nós.
Esta é, em poucas palavras, minha inespressivel percepção e experiência de Deus.

Continuo acreditando que Deus está no controle de tudo...
é livre para tomar decisões e afetar a realidade conforme sua vontade, cuida de mim e de todo mundo, faz e acontece na história e nas minhas circunstâncias, dispões de pessoas para a vida e para a morte, e o que mais você quiser ou considerar necessário atribuir como capacidade e direito a alguém que seja chamado Deus, afinal, por definição, Deus é incondicionado e ilimitado.

"O que me sustenta é saber que em pastos verdejantes às margens de águas puras e cristalinas, ou no vale da sombra da morte, nada preciso temer, pois Deus está comigo, refrigerando-me a alma, guindo-me pelos caminhos da justiça por amor do seu nome."
Não sei como seria minha vida se eu não acreditasse em Deus.
Mesmo com meus pecados e misérias, refazendo a vida a cada manhã que nasçe, vou tocando minha vida em frente, na certeza de que...

"O melhor ainda está por vir..."

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Dez conselhos para o Ano Novo!


Dez conselhos para o ano novo!
Vale a pena começar o ano com este texto.
Está sendo postado pela segunda vez, mas como no dizer da filosoa popular, acredito mesmo:
"A repetição é a mãe da sabedoria".
Boa leitura a todos!

1- Creia: você sempre encontrará pessoas mais ricas, mais bonitas e mais talentosas que você.
Portanto, não cobice ser o que outras pessoas são, possivelmente elas nem gostem de si mesmas.

2- Não acredite cegamente em ninguém (Nem por paixão).
O coração humano é corrupto e enganoso. os aplausos podem se tornar gritos de “crucifica-o”, numa velocidade impressionante.

3- Respeite seus inimigos...
Eles pelo menos foram honestos com você. Vale a pena respeitar o inimigo leal mais do que o amigo que finge e engana.

4- Cuidado para não falar demais.
Assim como palavras certas ditas em momentos certos produzem um feito incrível, palavras ditas em horas erradas causam transtornos enormes.
Quando falar demais, não tenha medo de voltar atrás e dizer que errou.

5- Não viva preocupado apenas com sua reputação...
Você depende mesmo é de seu Caráter.
Porque caráter é aquilo que somos e reputação é o que os outros sabem sobre nós.
Assim, não basta à pessoa parecer honesta, ela precisa ser e querer ser reta.

6- Ame a discrição.
Buscar fama, aplauso, proeminência sobre os outros pode ser perigoso para a alma.
Não queira aparecer a qualquer custo, talvez você não suporte as pedradas que virão sobre sua vida. Lembre-se que todos temos telhado de vidro. Os discretos ficam com o juízo só de Deus que é misericordioso.
Foi por isso que Davi quando adulterou e mandou para a frente do carro de batalha o marido de sua amante, Ele pediu para cair nas mãos de Deus e não na dos homens.

7- Respeite o dinheiro.
Não acredite que dinheiro é um poder neutro. Ele foi chamado por cristo de mamon, um deus idolatrado pelos pagãos. Saiba que você terá sempre que lutar para subjugá-lo, caso contrário, perderá sua alma.

8- Não tenha medo de duvidar.
Somente os tolos não questionam.
Duvidar não é sinônimo de incredulidade.
Se alguém disser que nunca hesitou em sua fé, pode apostar, é um mentiroso.
Só os que ousam obedecer ao pedido de deus, “venha e me questione”, crescem espiritualmente.

9- Não se puna tanto quando errar.
Lembre-se que erros fazem parte de todos os processos pedagógicos.
Apenas procure aprender e amadurecer com seus erros.

10- Não se leve tanto a sério.
Ria de si mesmo mais do que ri das tontices alheias. Ninguém é totalmente normal e você não serve de padrão para a vida de ninguém, cada um precisa talhar em pedra sua própria existência.
Salamaleiko.
Bom ano novo a todos!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Máximas Inflexivas Natalinas


Então é Natal.
As músicas piegas que nos fazem pensar que o mundo melhor é o nosso ecoam pelas caixas de som que surgem, altaneiras, nos becos de lojas de um centro nervoso urbanamente complexo. As decorações importadas surpreendem em valores e tomam de assalto as mesmas praças nas quais profetas profanos, profícuos, proferem suas preferências pelas reflexões sobre o sentido daquilo que se sente, mas cujo conceito não se assenta: o que, afinal, é o Natal?

Como uma canção que se reconhece pela melodia mas não se sabe a letra...
o Natal é facilmente perceptível pelas ruas, casas e esquinas de uma cidade, ainda que quase ninguém saiba exatamente o que ele é. Basta ver jovens travestidos com barbas e barrigas nem sempre postiças; combinações de vermelho e de verde – cores extremamente opostas e inconciliáveis para nosso país – e muita gente querendo fazer a boa ação esquecida em um ano durante uma semana, para saber que o Natal está na área. Mas dizer, de primeira, o que ele é, essa é tarefa mais difícil do que convencer um eleitor de que José Serra é simpático e eficiente.

Dizer que o Natal é uma festa religiosa não vale...
creio que 70% dos que celebram o Natal o fazem sem pensar, sequer em um segundo, sobre questões relativas ao nascimento de Cristo ou à Encarnação do Verbo. Por outro lado, entende-la como uma festa profana é inverter por demais o conceito do evento. Uma festa híbrida (e não sincrética) – ei-la, poderíamos assim defini-la com larga vantagem de ausência de erro.

Mas o que é uma festa se não um momento que se comemora coletivamente?
Então o Natal não é uma festa – imaginemos o Natal comemorado em praça pública, com shows e barraquinhas, à meia-noite do dia 24? Assim, o Natal é um evento estranho – público na mídia, nas lojas, nas Igrejas, mas familiar – quase patriarcal – celebrado dentro dos lares, portas abertas a parente e amigos mais próximos, mas fechada ao público. Um ritual de casa, e não de rua, diria Roberto Da Matta.

Para uns, o Natal torna-se uma boa desculpa para se sentir obrigado a fazer o que mais alegra: reunir a família em confraternização que vara a madrugada.
Sim – já reparamos o quanto é difícil fazermos cotidianamente aquilo que mais nos encanta, ao ponto de necessitarmos de uma reles motivação, vil e cronológica, por vezes, para realizar, em um dia mítico e místico, exatamente aquilo que desejaríamos tecer todos os dias?

O Natal, assim, é muito mais um conceito-para-mim e muito menos uma imagem para um nós que nunca existiu
Assim, esse Natal-para-mim é poder trocar um dedo de prosa com o mais sorridente mendigo da esquina. É viajar para o povoado menos pretendido do verão e voltar toda semana.

É andar sem relógio no pulso e sem sapatos nos pés. É transitar pela rua de bermuda de propósito, para não poder adentrar prédios públicos. É ouvir os ensinamentos de uma doce senhora apenas quando tenho vontade – e é ter vontade sempre. É escutar um velho amigo lembrar do passado e saudar seu olhar futurista. Natal-para-mim é ver borrões de verdade em cada desenho sem querer é mudar de uma rua para a outra e ter a certeza de que começa uma nova vida. É enxergar um novo caminho a cada curva do próprio quarto.

É escrever este texto, com a certeza de que ele não mudará vidas, mas adiará, por segundos, os minutos incessantes de mesmices que assolam os seus dias.

Feliz Natal.

Retirado do Incrivel Blog do meu parceiro e amigo Rafael Peçanha.

http://www.rafaelpecanha.blogspot.com/


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Ressurgindo das cinzas.



A cena ainda continua em minha memória.
Ele estava deitado num canto de um hospital gemendo com uma dor que maxucava inteiramente a minha alma. Ali, parado e sem atendimento, meu pai agonizava de dor na próstata sem saber que solução o médico daria ao fim daquela tarde. Nunca mais fui o mesmo.

Andando pelo corredores escuros daquele inóspito lugar
vi a dor de tantos empobrecidos que padecem pelo descaso com o sistema de saúde. Depois da cirurgia, passados alguns meses, vi recuperado aquele que era meu rei e meu herói, homem das dores com seu sorriso forte a me dizer que tudo dera certo.

Chorei.
Quando não podemos mais falar, quando nossa dor é tão forte e quando mal conseguimos pensar palavras, mesmo assim não estamos sós.

Deus ouve o nosso gemido!
É reconfortante saber que quando estamos a beira da dor, quando perdemos a humana esperança de dias melhores, mesmo assim, há uma presença e um carinho que extrapola a angustia do nosso silêncio.

A um alto preço, aprendemos a que dor sempre nos leva além.
Ela é uma ponte: estrada que conduz a um caminho que não queremos ir.

Hoje, 20 anos depois celebro a beleza de ver meu pai saudável.
Sim, ele continua caminhando todos os dias.
Alegra nossa casa saber que sua fé vem sendo modelada pelo carinho e o afeto singelo de mamãe.
Hoje, olhando para trás, sei que todo esforço e o sacríficio daquela mulher, não foi em vão. O que sou, sei bem, dependeu absurdamente dela.
E é isso que hoje me leva a escrever.

Salamaleiko.
30 de novembro - 2011.
Santa Teresa - ES

domingo, 11 de setembro de 2011

A ilusão de controlar.


A ilusão de que podemos controlar todos acontecimentos...
se fizermos tudo direito, de que podemos fazer com que as pessoas nos amem se fizermos as coisas certas, e de poder garantir finais felizes fazendo por merecê-los é realmente uma ilusão, e uma ilusão muito destrutiva para a pessoa.

Com o passar dos anos...
deixo de pensar que admiradores serão sempre bom motivo para motivar minha caminhada e meu trabalho. Simplesmente porque a mesma glória que hoje encanta é aquela que amanhã encherá de brilho os confetes que estarão no chão (depois da festa).
 
Não dou tempo a perfeccionismos.
Aceito tardiamente que a vida não tem lógica alguma! 
O evangelho que medito e prego parte de baixo, do chão da vida real e tem como meta e caminho o Reino vivido por Jesus.

Não importa o quanto nos esforcemos para sermos padres perfeitos, esposos perfeitos e pais perfeitos...
alguns casamentos acabarão de morte natural, alguns ministérios cessarão depois de crises, e a despeito de nossos maiores esforços, alguns filhos desapontarão e muito a seus pais.

Deitar-se na cama e repetir as palavras...
“Se ao menos eu tivesse agido de outra maneira” serve apenas para piorar a situação. Definitivamente não perderei meu precioso tempo com isso.

Inspirado em Harold Kusner.
Noite de nostalgia - domingo de chuva.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Crime e castigo - Dostoiévski


CRIME E CASTIGO  

Páginas e páginas da história estão abarrotadas de cadáveres.
Milhões de pessoas morreram devido a estupidez de reis, ditadores, sacerdotes e mercadores. Guerras foram justificadas por questões econômicas. Massacres aconteceram para defender patriotismos imbecis. Genocídios se repetiram para que determinada religião prevalecesse. Gerações se comportaram com menos dignidade que os lobos – que não são predadores da própria matilha.

Em sua clássica Obra "Crime e Castigo", Dostoiévski narra a vida de Raskólnikov, um jovem estudante desesperado pela miséria.
Vendo-se explorado por Aliena Ivánovna, uma velha, usurária que sobrevive da agiotagem, Raskólnikov a assassina com golpes de machado. Para justificar seu homicídio, Raskólnikov, que era brilhante, engendra uma teoria: existem dois tipos de indivíduos, os “ordinários” e os “extraordinários”.

Os “ordinários” são aqueles que se contentam em reproduzir, e caminham anônimos pela existência; eles fazem parte das massas, e vagam como manada.
Já os “extraordinários” são os responsáveis pela história e sobre seus ombros recai o dever de conduzir os destinos da humanidade.

Raskólnikov se inspirou em Napoleão antes de decidir matar.
Ele se lembrou que o imperador verteu rios de sangue para solidificar a burguesia francesa que necessitava de uma estrutura bancária. Seu pensamento foi mais ou menos o seguinte: “Ora, se a história absolveu Napoleão, que matou milhões em nome de um projeto econômico, porque eu, Rodion Románovitch Raskólnikov, não posso acabar com uma decrépita, que repete na microestrutura o que o sistema bancário faz na macroestrutura?”.

Neste pressuposto, Dostoiévski critica o projeto da modernidade.
A modernidade, que transformou o século XX no mais sanguinário da história, se desenvolveu com a lógica sacrificial de que indivíduos podem ser descartados. Quem vai julgar a indústria do leite em pó, que promoveu um infanticídio na África ao incentivar o abandono do aleitamento materno? As grifes famosas, que exploram o trabalho escravo na Ásia para maximizar lucros, permanecerão impunes? Quem há de protestar contra o absurdo de uma xícara de café custar, na Europa, mais que um dia de trabalho em fazendas da América do Sul?

"Será que George W. Bush vai mesmo desfrutar uma vida abastada e longa no Texas, sem sofrer nenhum processo em tribunais internacionais?"

Os “extraordinários” se sentem imunes e impunes.
Em nome do processo civilizatório, do capitalismo que mantém a engrenagem econômica em movimento e do progresso, vidas são eliminadas, inclusive, com efeitos colaterais perversos. Danem-se os pobres, as crianças e os deficientes. “Algum preço tem que ser pago para que a humanidade progrida e alcance seu fim glorioso”, afirmam.

"Em cima de tal lógica, Raskólnikov jamais admitiu ter matado a velha.
Para ele, um “princípio” foi eliminado. Aquela mulher era um "obstáculo" que estorvava o seu caminho."

Profeta adiante de sua época, Dostoiévski expôs a inclemência do capitalismo, que não tem escrúpulos de mercadejar com a alma humana.
As grandes fortunas, os mega empreendimentos, as ideologias absolutas, junto com as religiões dogmáticas, não têm coração; não sentem remorso. Mas Raskólnikov sofreu. Sua consciência não o deixava em paz, teve febre e foi para o fundo do poço.

A mensagem final do livro é:

"...Existe a possibilidade de um novo começo para indivíduos maus; as estruturas sociais, religiosas e econômicas, entretanto, se depravaram e nunca vão parar de assassinar."

Salamaleiko.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Fragilidade do pensar.



O mais difícil dos conceitos pode ser explicado ao mais limitado dos homens se ele estiver aberto à novidade da informação e se ele já não tiver uma ideia formada a respeito deste conceito.

Porém, a coisa mais simples do mundo, não pode ser esclarecida ao mais inteligente dos homens se ele estiver persuadido de que já conhece, sem sombra de dúvida, o que está sendo colocado à sua frente.

Leon Tolstoi

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Estou Cansado!


Estou cansado.
Percebo que tantas vezes, alheia à realidade humana, a internet está criando uma raça de pessoas "inoxidáveis".
Não enferrujam, não se entristecem e nem querem estar "fora de moda". 
Pior que também me sinto assim.

Nas redes sociais todos riem, se descrevem como gostariam de ser.
As vezes vejo pessoas que se descrevem como amantes da vida, de boas intenções, e é claro, "sempre" sinceras.
Rugas desaparecem no rosto de quem na real, sente-se feio, porque devidamente maquiados no photoshop.

O que está acontecendo?
Infelizmente, mesmo encantada consigo mesma, percebo que esta geração demonstra pouca felicidade. Pra muita gente a vida só tem graça nas imagens digitalizadas.
Pergunto: - Pra quê tirar foto de restaurante e logo pensar em postá-las na internet?
Donde vem esse falso pensamento de que uma imagem bem feita pode suplantar a realidade de uma vida?

"No jogo das imagens o leque de cores é infinito. A possibilidade de ser feliz se transferiu para a qualidade da foto que se divulga, "falsa" expressão na nova dimensão da comunicação virtual."

Com o advento da internet, respira-se uma nova liberdade.
A democracia virtual abriu espaço para todo tipo de gente.
Já recebi criticas tão bestas e ingênuas por algumas coisas que escrevi, que sei, não valem nem a pena comentar.

Sem saudosismo nostálgico...
e sem querer estancar o curso da história, acredito ser possível humanizar a internet – antes que ela se transforme no novo ópio da humanidade. Ainda dá para fugir de idealizações de quem se esconde atrás da tela. Aterrissemos e vamos encarar a miséria como insulto, a guerra como anacronismo e o trabalho infantil como maldição.

Minha esperança se sustenta na idéia de que um dia...
cansados das imagens bonitinhas, vamos desejar botar os pés no chão. Por enquanto, dá para pedir: -Por favor, não deixemos a vida se esvair pelas nossas vaidades, pela nossa imagem. Isso também passa com os dias.

Salamaleiko.

 

terça-feira, 26 de julho de 2011

Sobre Fanáticos e loucos.


"Não brigueis com que é malvado". (Mt 5, 39)

De fato, tem gente que não vale a pena dialogar.  
Lembro-me daquele dia qm que uma senhora no interior do amazonas me disse:
-"antes da conversão na fé, frei, vem a conversão da vontade. Quando uma pessoa não quer abrir- se às verdades do evangelho, não adiante conversar."

Jesus aconselhou seus seguidores a não perderem tempo jogando pérolas aos porcos. 
Hoje creio profundamente no que diz a Bíblia  a respeito do conselho de que não devemos perder tempo com discussões tolas, e com pessoas não querem mudar de mentalidade.

O fanatismo nasce de um coração que se acha absoluto.
O fanático se mantêm as custas da crítica mordaz que faz ao seu inimigo. seu alimento é temperado pelo sal da soberba no pensar.

Mas todo fanático revela uma fragilidade espiritual: 
Ele mostra uma ansiedade que supostamente parece  dominada, e por isso ele ataca com violência desproporcionada as pessoas que discordam de sua forma de pensar, e que demonstram, por sua discordância, elementos que o fanático deve suprimir ele mesmo, de sua vida espiritual. 

O fanático crê que deve apagar o que o contradiz de dentro dele... 
e por isso se vê na obrigação de suprimir estes mesmos valores nos outros. Sua ansiedade força-o a perseguir os que dissentem. 

Fico com a frase do téologo e escritor Paul Tilich, na leitura que começo hoje:
"A fraqueza do fanático consiste em que aqueles que ele combate têm uma secreta ascendência e exercem um domínio sutíl sobre ele; e por esta fraqueza ele e seu grupo afinal sucumbem."

Inspirado na leitura hoje do Paul Tillich 
Livro: A Coragem de ser - Editora Paz e Terra, p.38.

domingo, 17 de julho de 2011

Lógicas Incertas.



Jaques Cousteau foi um dos maiores oceanógrafos que o mundo já conheceu.
Ele foi o inventor dos modernos equipamentos de mergulho autônomo de nosso tempo e também participou como piloto de testes da criação de aparelhos de ultra-som para levantamentos geológicos do relevo submarino e de equipamentos foto-cinematográficos para trabalhos em grandes profundidades.

Quando eu era pequeno...
ali pelos meus 12 anos, lembro-me que adorava ficar na frente da televisão vendo uma série jornalística de um dos maiores conhecedores quando o assunto era pesquisa no mar.

Certo dia, vi uma entrevista em que um jovem jornalista entrevistava o Jaques Cousteau.
Ele perguntava ao pesquisador sobre o nosso temor aos tubarões e desejava saber quais as chances de um ser humano escapar no enfrentamento direto com um desses estupendos animais.

O cientista respondeu que as possibilidades de sairmos ilesos de um confronto direto com aqueles animais ferozes eram nulas.

O jornalista intrigado, não se satisfez com a resposta...
e começou a perguntar em sequência, se o tubarão atacaria se já estivesse alimentado, se fosse de noite, se estivéssemos numa jaula, se fôssemos muitos, se carregássemos um arpão, se entregássemos alguma isca , etc.

A cada pergunta, a resposta do cientista Cousteau era sempre a mesma:o bicho atacará de qualquer modo.

Irritado, o jovem jornalista então bradou: - mas isso não tem lógica!
Com paciência, o genial pesquisador dos mares retrucou:

"Tem sim, mas é a lógica do tubarão..."

Salamaleiko.
Frei Eduardo F. Melo

Retirado do Livro do Mário Sérgio Cortella.
"Perguntas que merecem respostas."

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Alívio ou Esperança?


 Tenho uma profunda admiração pelo escritor Ariano Suassuna.
Famoso romancista nordestino, escritor de várias obras do teatro nacional, um dia ele afirmou num programa de televisão que das tres virtudes cardeais, entre a fé, a esperança e a caridade, ele gostava mais da última:

"...Reconheço que sou fraco na Fé, displicente na caridade, mas me considero um Realista Esperançoso."

Um sábio provérbio chinês diz que esperança e o conhecimento dificilmente se encontram.
Nunca esperamos o que já sabemos e nunca sabemos ao certo o que esperamos. O coração humano possui essa dualidade.
Nesse sentido podemos afirmar que a esperança é mais nobre até que a própria fé.
Na fé, sabemos o que queremos. Temos um alvo.
Temos um alicerce em que baseamos nossa certeza: o caráter de Deus.
Na esperança, não temos nenhuma indicação do que possa acontecer no futuro, tudo é difuso. Entretanto, na esperança há uma força que nos diz: “vale a pena continuar”.

Se você perguntar porque vale a pena continuar, não obterá respostas.
Se perguntar, para que lutar, não obterá qualquer explicação.
A esperança não se explica, a razão nao consegue decifrá-la. Ela não oferece respostas.  
A esperança apenas nos manda continuar acreditando que de alguma maneira, por alguma razão, vale a pena viver, amar, sonhar e planejar para o futuro.
 
Esperança é desejar o que não depende de nós, mesmo quando temos a sensação de estarmos seguros de tudo o que queremos.
Quando podemos fazer, não nos cabe esperar, devemos realizar.
Ninguém espera aquilo que é capaz. apenas faz.
Esperança é um desejo cuja satisfação não depende das pessoas.
 
Esperança é um grito que nasce de dentro do nosso espírito e que proclama:
 
"...Apesar de tudo, de alguma forma, mesmo na crise, não sei como, mas tudo vai dar certo!”
 
Esperança é ter coragem de afirmar dentro das cinzas da angústia e do desespero, que: “o melhor ainda está por vir!”
 
E se o melhor não vier, não tem problema. Creio que vale a pena continuar acreditando.
A biblia diz que a tristeza na vida de uma pessoa pode durar uma noite inteira. Mas também há uma certeza: a alegria vem pela manhã!
 
E é nessa certeza que hoje creio.
 
Salamaleiko.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Sobre a arte do Pensar.


O pensamento precisa de espaço para pensar.
Para cogitar, faz bem desembaraçar-se de censuras.
Transpor barreiras de pensamento não significa cortejar a aventura de contrariar-se.
Existe vida além do horizonte. Lá, onde vivem os delinquentes também há amor.
Aliás, cria melhor quem ousa visitar a trincheira dos hereges.

Quem pensa não inventa a verdade. A verdade constrói o pensador.
Newton não imaginou a lei da gravidade, foi a gravidade que transformou os seus olhos. Depois que uma maçã despencou, Newton perguntou: Por que ela cai e não flutua? Dessa pergunta a humanidade descobriu a verdade que os corpos se atraem na razão direta das massas e inversamente ao quadrado da distância que os separa.

Eles afirmaram e repetiram que a verdade descansa no mistério, no absurdo, onde a razão não chega.

Ghandi, Martin Luther King e  Madre Teresa de Calcutá encarnaram a máxima cristã de que a vida eterna pertence a quem se curva para ajudar o caído. Os juízes e os magistrados honestos são profetas que pelejam pelo que é justo e correto.

A verdade, porém, creio, é maior que a capacidade humana de concebê-la.
O saber de todas as bibliotecas mal arranha a superfície da complexa mecânica do universo. A beleza de todos os museus guarda meros fragmentos da criatividade do coração de homens e de mulheres.

A percepção de todos os santos é incapaz de discernir o imponderável no mundo espiritual.
Toda a bondade já encarnada não exaure a nobreza que ainda pode ser vivenciada no mundo. 

A verdade depende da graça para não correr o perigo de ser instrumento de morte.
Veja os sistemas totalitaristas que defenderam até a morte "verdades" que eram "suas": nazismo, Jihad, Islamismo radical.
A Verdade carece de conectar-se com a vida para não ficar confinada a uma torre de marfim. Ela precisa ser humilde para não gerar arrogância.

Toda a verdade pertence a Deus.
Um texto paradigmático.

SALAMALEIKO.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Absurdos do Amor.


Para Jesus, o que define a perfeição de Deus não são as características filosóficas e lógicas da onipotência, onisciência, etc., mas sim a sua capacidade ilimitada de amar a todos, mesmo os injustos e os maus.


Deus não ama os seres humanos porque merecem, mas sim porque Ele ama gratuitamente a todas as pessoas, boas e más...


Amor tem pouco a ver com merecimento.
O amor não é um prêmio que se dá aos bons, mas nasce da liberdade da pessoa que ama..

creio nisso.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Novos Ensaios...


Recentemente fui abordado por uma senhora aqui no bairro onde moro.
Ela havia participado de uma celebração onde eu estava, e por uma má interpretação de minhas palavras, seu coração ficou perturbado naquela noite.
Meu modo de falar tinha lhe dado a impressão de que eu desconfiava do poder da oração. Assim, ela não hesitou em disparar a "pergunta" que muitas pessoas carregam e fazem silenciosamente no coração.
 
Frei, você não acredita que a oração tenha poder de transformar o mundo e as pessoas?
Costumo dizer para as pessoas, que orar para que certas coisas aconteçam se torna, as vezes, um ato de Irresponsabilidade da nossa parte.
Explico-me:
 
Por exemplo: pra que uma pessoa orar pela interrupção do aquecimento global se isso não vai resolver nada? Pra que orar para que se acabe a fome na África, se não nos envolvermos sériamente na causa dos mais empobrecidos daquele continente?
 
O que vai resolver é agir, tomarmos atitudes.
Colocar mãos a obra e se comprometer de verdade em consumir menos, poluir menos, ter uma vida mais simples, respeitar o planeta que é um organismo vivo, ajudar solidariamente os mais pobres é que pode mudar este mundo.
 
As vezes, creio que orar vai ajudar a mudar a nossa mente, o nosso modo de ver as coisas.
Sinceramente não acredito que uma oração pode "empurrar" Deus a fazer alguma coisa. Porque é a nossa mentalidade que precisa ser mudada, não a de Deus.
Acredito também que Deus está em cada pessoa, e que é "real" essa conexão invisível entre todos os seres humanos.
A mente humana ainda possui muitos mistérios a desvendar.

Também gosto de dizer que nós somos o corpo de Deus aqui na Terra...
somos os braços dEle, quando estendemos a mão a quem está caído.
Podemos ser os pés dEle, quando caminhamos junto dos que precisam de apoio e de ajuda concreta.
Podemos ser expressão do cuidado e da ternura do nosso Deus quando podemos consolar alguém que precisa de afeto e carinho.
Então cabem a nós, as ações que muitas vezes achamos que devem vir dEle, que esperamos que caiam do céu.
 
Alimentar os famintos, dar de beber a quem tem sede, teto a quem não tem onde morar, roupa para quem não tem o que vestir, consolo a quem sofre, compartilhar a vida, a morte: essa é a nossa missão.

Creio nisso.
Salamaleiko.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Outros códigos de Fé.


Sinceramente, não acredito mais na fé como força dirigida a Deus que o induz a agir. Entendo a verdadeira fé como coragem para enfrentar a existência com os valores de Jesus de Nazaré. 
Penso de forma diferente quando falo em Fé. Porque considero leviano afirmar que ao orar, mulheres pouparão os filhos de se envolverem com drogas, promiscuidade e outros males.

"Por que Deus ficaria de mãos atadas ou indiferente diante das opções, muitas vezes atrapalhadas, de rapazes e moças? Seria justo afirmar que se os pais não vigiarem, Deus permitirá a perdição eterna dos filhos?"

Fé significa que a verdade vivida e revelada por Cristo basta para que eu encare as contingências do mundo com coragem.
Minha fé não pretende movimentar o Divino, mas ser pedra de arranque onde impulsiono minha caminhada na perigosa aventura de viver.

Creio assim.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Infinitos Dias.


"Eu admiro aquelas pessoas que conseguem sorrir diante dos problemas, reunir forças na hora da angústia, e ganhar coragem na reflexão.
É coisa de pequenas mentes encolherem-se.
Mas aquele cujo coração é firme, e cuja consciência aprova sua conduta, perseguirá seus princípios até o fim, mesmo na possibilidade da dor."

( Thomas Paine )